
Ao se apagarem as luzes na Granja do Solar, tem início uma reunião insólita. Major, o respeitado porco, convoca os animais para lhes contar o sonho que teve na noite anterior. Ele vislumbrou a gloriosa era onde os bichos seriam senhores da terra, vivendo em paz e igualdade.
Major morre, mas seu sonho ganha vida. Bola-de-neve e o assistente Napoleão lideram a revolução, expulsando o dono da fazenda (Jones), e organizam a nova administração. A constituição (Animalismo) tem apenas sete mandamentos, aceitos em comum acordo.
O ambicioso Napoleão, aproveitando as brechas do poder, trapaceia o chefe, toma o posto e se torna o líder máximo da fazenda.
Os porcos, cuja esperteza os colocam no topo da casta, adulteram gradativamente os princípios do Animalismo. Usufruem privilégios, antes condenados, como morar em casas, beber, vestir, dormir em camas e andar como pessoas.
O comitê se vale de três recursos para manter o controle total da fazenda.
Primeiro, a força. Napoleão executa animais acusados de motim para servir de exemplo aos demais. Ao menor sinal de rebelião, os cães lançam grunhidos ameaçadores, silenciando a todos.
Segundo, a ignorância. A maioria dos bichos conhecia somente as primeiras letras do alfabeto. Alienados, aceitam a nova máxima sem maiores problemas: “Todos os bichos são iguais, mas alguns bichos são mais iguais que outros”.
Terceiro, a exploração. Os bichos trabalham como escravos, perdendo a noção de como era a vida na época do Sr. Jones. Trabalhadores, como “Sansão”, acordam mais cedo, dá duro nas horas de folga com o lema: “trabalharei mais ainda” e “Napoleão tem sempre razão”.
Anos depois, a nova geração só conhecia esta realidade, exceto Quitéria, Benjamim, o corvo Moisés e alguns porcos... A vida era difícil, mas existia a certeza de que todos eram iguais.
Certa noite, os porcos recebem os vizinhos humanos para uma reunião na casa. Os demais animais ficam à espreita do lado de fora na janela da sala.
Seguem-se pronunciamentos, declarações de mútuo afeto e admiração por ambas partes. Os vizinhos humanos congratulam os porcos pelos métodos modernos de ordem e disciplina impostos.
Atordoados, os bisbilhoteiros deixam o local, mas logo retornam ao ouvir violenta discussão entre Napoleão e o vizinho humano, motivada por uma jogada no carteado.
Mudos, olhavam o porco e o homem alternadamente por um bom tempo, mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco.
George Orwell, em "A Revolução dos Bichos" (1945), quis denunciar o mito soviético numa história fácil de compreender e de traduzir para outras línguas. A inspiração veio ao ver um menino chicoteando o grande cavalo que puxava a carroça. Se o cavalo tivesse consciência de sua força, não permitiria tal tratamento, pensou Orwell.
Quanto ao misterioso final da história, o autor afirma que sua intenção foi enfatizar a discórdia e não a reconciliação, aludindo à Conferencia de Teerã onde a URSS e o Ocidente estabeleceram relações diplomáticas, que foi seguida pela guerra-fria.
Esta fábula mostra a aversão que os animais sentiam pelos humanos. Era-lhes vergonhoso imitá-los em seus vícios e comportamentos. Daí a ditado repetido pelas ovelhas: “Quatro pernas bom, duas pernas ruim”. A cena final mostra o espanto dos animais que não conseguem mais distinguir homens e porcos.
Nesse caso, os animais se tornaram semelhantes aos homens porque os imitaram em tudo. A semelhança também pode ocorrer de modo inverso, ou seja, quando os humanos descem ao nível dos animais.
E isso deveria nos deixar duplamente envergonhados. Primeiro, quando homens agem de forma insensível e irracional, como bestas que matam e devoram suas presas para saciar seus instintos. Segundo, quando os animais se comportam como seres humanos fazendo melhor por meio do instinto o que fazemos pelo arbítrio.
Como exemplo do primeiro caso citamos Mao Tsé-tung, que dizia: “não concordo com a visão de que, para serem morais, as ações têm de beneficiar a outrem. O único dever de pessoas como eu é para com elas mesmas”. Foi com essa filosofia que ele levou à morte 70 milhões de pessoas por sua responsabilidade direta. É mais do que Adolf Hitler e Stalin conseguiram matar juntos, a despeito de seus extenuantes esforços.
Não sejais como o cavalo ou a mula, sem entendimento, escreveu Davi (Sl 32.9).
Como exemplo do segundo caso, lembramos o fato que teve repercussão nacional ocorrido em 1998, na cidade de Campos de Goicatazes-RJ. O menino Lucas foi salvo do ataque do pit bull pela cadela vira-latas Katita, que se lançou sobre o raivoso cão. Ela saiu bastante machucada, mas sobreviveu. A simples cadela deu sua vida em favor do menino.
Os animais são elogiados por Deus, que diz: “O boi conhece o seu possuidor, e o jumento, o dono da sua manjedoura; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende (Is 1:3)”.
Homens e animais têm pontos em comum de acordo com Gênesis, mas somente o homem tem algo de divino, o que o torna totalmente distinto dos demais habitantes da terra. Deus é o nosso referencial. Por isso nada mais humaniza do que se reconciliar com Deus e manter comunhão com Ele.
Jesus, sendo Deus eterno, se fez homem para se comunicar conosco, mostrando o que é ser humano de verdade, pois ele é o homem perfeito. O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz, disse Isaías (9.2).
Esta é a grande revolução dos homens, que se iniciou desde os tempos eternos, mas que se tornou realidade em Belém, há cerca de 2008 anos.