
O ministro da Saúde, Agenor Álvares, lançou no dia 11/02/07 a campanha de prevenção à aids para o carnaval 2007. O slogan foi: “Com camisinha, a alegria continua durante e depois da festa".
Na TV, a campanha mostra um homem que acorda atordoado depois de uma ressaca de carnaval. Ao seu lado há uma pessoa (não se sabe se é homem ou mulher). Ao ver o parceiro sexual fica preocupado, pois não sabe ao certo se usou camisinha. Mas logo se acalma ao ver uns pacotes de preservativos abertos na mesa de cabeceira. Na cena seguinte, vai à luta exibindo um largo sorriso no rosto. Passa o dia atolado de serviços; dirige em trânsito pesado; pega fila e se molha na chuva. Mas nada disso esfria seu bom humor.
Essa campanha visa reforçar a idéia de que o folião pode ficar despreocupado depois da festa, se usar o preservativo numa eventual relação sexual. Isso prolonga sua alegria e o seu prazer. Tem como público alvo pessoas que estão no chamado “comportamento de risco”. O comportamento de risco envolve a relação sexual (homo ou heterossexual) com uma pessoa infectada, sem o uso de preservativos; compartilhamento de seringas e agulhas no uso de drogas injetáveis; transfusão de sangue contaminado pelo HIV; reutilização de objetos perfurantes ou cortantes contaminados pelo HIV.
Sem dúvida a camisinha tem sido importante no combate à proliferação da Aids. Todos os esforços não só do governo, mas de toda a sociedade são necessários na luta contra esse terrível mal. A Aids, diferentemente de outras doenças, tem fortes implicações morais, emocionais, sociais e econômicas, especialmente para a célula da sociedade, que é a família. Isto porque a principal via de transmissão da doença é pela relação sexual. Dito isso, o filme não deixa de gerar uma certa inquietação pela forma como foi apresentada. Há dois aspectos que chamam a atenção quando confrontados com o quadro atual da doença no país.
Em primeiro lugar, o vídeo não tem o foco voltado às principais vítimas da Aids, que são as mulheres. Nota-se que um homem acorda preocupado. O país tem mais de 650 mil soropositivos. De 1994 a 2004, o número de casos de mulheres infectadas aumentou 175%, enquanto o crescimento em homens ficou nos 29%, segundo Boletim Epidemiológico 2005.
Há 20 anos, a relação de Aids entre homens e mulheres era de 40 (homens) para 1 (mulher). A tendência é que as mulheres ultrapassem os homens, atingindo mais as mulheres acima de 25 anos.
O grande drama foi constatar que a maioria das mulheres infectadas pelo HIV contraiu o vírus de seus parceiros fixos - maridos e namorados. Mulheres casadas e fiéis são freqüentemente surpreendidas pelo HIV, expondo a cruel traição dos maridos.
Portanto, a conclusão natural a que chegamos é que a preocupação seja, antes de tudo, da mulher. Somente agora, em março deste ano que foi lançada a primeira campanha direcionada a elas. Mas ainda assim não atinge o cerne da questão.
Em segundo lugar, a campanha soa como a Lei de Gerson. No fundo, o que ela diz é: "Você gosta de levar vantagem em tudo, certo? Então, use camisinha!" Então, aquele que é malandro, astuto e esperto sabe dar um "jeitinho" em tudo, inclusive na esfera sexual. O jeitinho é usar preservativo e todo o resto se ajeita.
Voltando ao filme, nota-se que o rapaz é não é soropositivo, ou pelo menos pensa que não é, visto mostrar-se bastante assustado. Teme ficar doente. Mas tranqüiliza-se ao ver que usou o preservativo. Esse é o perfil do esperto que tenta levar vantagem lá fora e também dentro de casa. Tem um porto-seguro, mas também adora navegar pelos mares, dando umas paradinhas em outros portos.
O problema é que as mulheres fiéis a esse tipo de “malandro” tem sofrido as conseqüências. São os maridos e namorados que traem suas parceiras. Esquecem que em casa há uma mulher, uma esposa, uma mãe que espera um filho. Filhos que dependem dele para terem um futuro. Sua malandragem o impede de pedir que a esposa se proteja, pois seria desmascarado.
O Brasil tem mantido o Programa Nacional de DST e AIDS a um custo bastante alto. Gasta anualmente mais de US$ 300milhões. Além disso, distribui gratuitamente remédios pirateados com a quebra de patentes de laboratórios estrangeiros, alegando razões humanitárias.
Diante disso, a questão é: será que o programa brasileiro, tão elogiado e recomendado pela ONU não precisaria ser repensado para que seja mais efetivo em seus resultados?
Vejamos por exemplo a experiência da Uganda, país africano. Lá se conseguiu reduzir a taxa de soropositivos de 18% para 5% e ainda com um gasto incomparavelmente menor que a do Brasil. A diferença é que acrescenta a esses fatores uma campanha pela abstinência sexual antes do casamento e pela fidelidade conjugal depois.
Por outro lado, esse tipo de campanha tem despertado profunda indignação de representantes da ONU como Stephen Lewis. Ele tem dado entrevistas acusando o presidente Museveni e sua esposa Janet de imporem uma ideologia cristã e americanizada e sabotarem a distribuição de preservativos.
O porta-voz de Museveni, Onapito Ekomoloit afirma que o presidente e a primeira-dama estão sendo mal compreendidos e difamados. O que eles defendem é um tratamento em várias frentes. Aqueles que são sexualmente ativos devem ser fiéis a seus parceiros. Os outros deveriam se abster. Aqueles que não podem se abster, que usem camisinha.
Podemos reconhecer e aprender com a experiência da Uganda. Independentemente de ideologias, sejam cristãs ou políticas, a abstinência é antes de tudo uma atitude de bom senso e responsabilidade. A camisinha é um “jeitinho”. O que resolve de fato o problema da Aids é a mudança de comportamento.
O Brasil faz agressivas campanhas de trânsito contra o excesso de álcool e velocidade nas estradas. Campanhas do tipo: “Não corra! Não mate! Não morra!”. Apela-se para a consciência e a maturidade do motorista. Sendo assim, poderia perfeitamente fazer uma outra desestimulando o “jeitinho” dizendo algo como: Não traia! Não mate! Não morra!
Concluindo, Jesus era sensível às pessoas que tinham problemas na área sexual. Ele se importava com a dor que enfrentavam. Mas ele sabia também que havia só um remédio. Por isso ele disse: Vá e não peques mais!