Uma paixão espacial e um ataque terrestre

Algumas frases ditas pelos astronautas ficaram famosas. Yuri Gagarin, o primeiro homem que foi ao espaço, exclamou: – A terra é azul! Outra marcante foi: – As estrelas não piscam!
Já na conquista da lua pelos americanos em 1969, Armstrong declarou: – Um pequeno passo para um homem, mas um grande passo para a Humanidade!

No dia 06/02/2007, mais uma frase ficou para a história da Astronáutica: – Foi estúpido!
Esta frase foi dita por uma astronauta. A longa viagem foi programada aplicando técnicas aprendidas nos treinos na NASA. Levou consigo os instrumentos mais adequados para o sucesso da missão: uma peruca, spray de pimenta, fraldas, um bastão, uma faca, luvas de borracha, sacos de lixo, uma marreta, uma espingarda de chumbinho e cópias de e-mails. Sua missão foi abortada após a astronauta ficar fora de órbita.

Explico. A astronauta saiu de órbita, ou melhor, endoideceu. Cometeu um crime passional, atacando uma rival. Estava dominada por uma crise de ciúmes. Nowak, 43 anos, casada, três filhos, vinha mantendo um relacionamento amoroso com o bonitão, solteiro, mas infiel comandante William Oefelein. Ambos fizeram parte da tripulação do ônibus espacial Discovery em 2006. Ela em julho e ele, em dezembro.
A astronauta descobriu que estava sendo trocada pela capitã Colleen Shipman. Ao saber que Shipman pegaria um vôo de Huston à Orlando, resolveu interceptá-la ainda no aeroporto. Para isso pegou a estrada com seu carro percorrendo 1.500km. Levou consigo os tais equipamentos e foi vestida de fraldas para ganhar tempo.

Nowak seguiu a moça até o estacionamento. Assustada, a vítima tentou fugir com o carro, mas sem sucesso. Nowak disparou um spray de gás pimenta nos olhos da rival. Nesse momento chegaram os agentes de segurança e deram voz de prisão à agressora. Detida, a astronauta afirmou que apenas queria conversar com a nova amante do comandante.

Os astronautas são vistos pelo público como pessoas muito especiais. Estão entre os melhores dos melhores em termos de saúde e resistência física, emocional e mental. Afinal, somente pessoas assim poderiam ser enviadas ao espaço. Um ambiente hostil à vida e enfrentando perigos inimagináveis. Estão preparados até mesmo para uma eventual morte.

Esse acontecimento bizarro deixou muita gente perplexa. Acham difícil admitir que um profissional desse gabarito se deixe abater por problemas passionais. Ainda mais armar um barraco desses, beirando o ridículo.

Todos faziam a mesma pergunta. Por que? Como uma pessoa tão bem treinada seria capaz de se render ao ciúme e à vingança, inflamada por uma paixão descontrolada? As pessoas são assim tão imprevisíveis? Deixam-se guiar pelas emoções em vez da razão?

Os seres humanos são um paradoxo estranho e trágico. Vários pensadores procuraram definir o homem. Para Platão, o homem é aquele que anda ereto. Aristóteles disse que os humanos são animais políticos, os únicos que não sacodem as orelhas. Outros disseram que o homem é aquele que olha para o céu; aquele que sorri; aquele que faz ferramentas; aquele que cozinha, etc.

Na filosofia moderna, os humanistas seculares vêem o homem como o resultado das forças evolucionárias aleatórias, cuja capacidade criadora o levará a assumir as rédeas de sua própria história e controlar o seu próprio destino.
Para os existencialistas ateus, o homem é desprovido de quaisquer sentidos. Deus não existe. Sendo assim, não há moral. Para eles, embora estejamos no caos, precisamos validar nossa existência pelas ações, quer sejam boas ou más ( o que é um grande perigo).
Humanistas e existencialistas se posicionam em lados opostos. O primeiro é otimista demais. O segundo, extremamente pessimista.

Somente Cristo dá uma visão equilibrada do ser humano. Ele afirma o paradoxo humano. Ele mostrou que o homem tem a glória e a dignidade de um lado e a vergonha e a depravação do outro.
A glória do homem (entenda-se homem e mulher) consiste em ter sido criado à imagem e semelhança de Deus. Deus nos quer como membros de sua família. Jesus mostrou que temos também um lado sombrio. Ele disse: “Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Ora, todos estes males vêm de dentro e contaminam o homem.” Mc 7.21-23

Esse é o paradoxo humano. Somos ao mesmo tempo nobres e ignóbeis, racionais e irracionais, morais e imorais, criativos e destrutivos, amorosos e egoístas, como que divinos, mas também bestiais.

A partir desse paradoxo podemos entender por que Jesus, o bom pastor, deu sua vida por nós. Primeiro para nos dar uma nova vida para anular esse conflito paradoxal. As características originais do homem são restabelecidas, ou seja, a imagem e semelhança de Deus. Em segundo, para dar o perdão e purificação de nossos pecados. Esse processo de santificação que se inicia com o novo nascimento é a experiência de uma vida transformada pelo poder de Deus. Um ser integral, não multifacetado.

Assim, vimos que na sociedade acontecem coisas que nos deixam boquiabertos, como o caso da astronauta. Esse ato expõe a complexidade da natureza humana. Somos seres contraditórios. A Bíblia mostra que o homem natural possui duas naturezas opostas entre si. Jesus veio para nos salvar, nos livrar desse conflito dando-nos uma nova vida, cujos conflitos são resolvidos em três níveis. O primeiro, eu com Deus. O segundo, eu com o meu próximo. Em terceiro, comigo mesmo.

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