
O time brasileiro favorito da Copa de 2006 acabou surpreendendo pela mediocridade. Paramos nas oitavas de final, quando fomos desclassificados pela França. Diante da humilhante derrota e perplexidade geral, a pergunta que ficou na boca do povo foi: o que aconteceu? Não tínhamos os melhores jogadores? Os adversários não tremiam diante da possibilidade de enfrentar o Brasil? Várias hipóteses têm surgido na tentativa de encontrar respostas plausíveis. A explicação mais aceita é a de que tínhamos, sim, ótimos jogadores, mas eram grandes talentos individuais. A equipe era ruim. Não havia entrosamento, garra, liderança em campo, preparo e concentração.
O Brasil tem se destacado nos esportes, especialmente no futebol. É uma referencia mundial. Por conta disso, os brasileiros são um povo bem aceito na maioria dos países, mesmo naqueles considerados hostis. O mesmo não acontece com os americanos, por exemplo. Isso, sem dúvida, é um grande privilégio.
Embora o esporte tenha sua importância, ela sozinha não dá sustentação a uma nação. Quando as forças produtivas e as instituições do país se interagem harmoniosamente, o país caminha para o desenvolvimento. Mas, a realidade brasileira ainda deixa muito a desejar. Se fizermos um rápido apanhado dos principais segmentos da sociedade, veremos que estamos ficando para trás em pontos estratégicos.
a) Política: nos últimos anos estamos presenciando vários escândalos na esfera política. O Congresso Nacional é um exemplo. Justamente entre os representantes da vontade popular. A atitude dos nossos parlamentares é uma pequena amostra do que acontece na sociedade como um todo. É claro que há políticos honestos, que lutam por um Brasil melhor. A corrupção vai minando a força e o futuro da nação.
b) Economia: No inicio dos anos 70 o Brasil era tido como um país de terceiro mundo em desenvolvimento. Hoje, países que eram consideramos mais pobres estão surpreendendo o mundo com o crescimento da economia. A Índia, China, os tigres asiáticos e até mesmo o nosso vizinho Chile estão dando um show de desenvolvimento. O Brasil continua sendo um gigante adormecido em berço esplendido. A distribuição de renda no país é um dos mais perversos do mundo. O Brasil é um país de pobres, embora seja riquíssimo.
c) Educação: O analfabetismo diminuiu bastante em nosso país. Isso é muito bom. Mas o que temos que questionar é a qualidade de alfabetização. Estudos mostram que a grande dificuldade dos alunos que participaram do provão era entender o enunciado da questão. Não basta saber ler. É preciso entender o que se lê.
Outra tempestade à vista é o estabelecimento da Lei das Cotas nas universidades. Se aprovado pode gerar um novo racismo. Por que não usar um critério mais justo como, por exemplo, a condição social do candidato?
d) Segurança: estamos presenciando o esfacelamento da autoridade do governo em termos de segurança. O PCC ataca e mata policiais e agentes penitenciários. As rebeliões nos presídios estaduais acontecem ininterruptamente. A corrupção corre solta dentro e fora das celas. A rejeição do plebiscito do desarmamento mostra o medo da população em entregar as armas e confiar na segurança oferecida pela policia. O tamanho da população carcerária no Brasil cresce exponencialmente. Isso também é um claro indício de que o Brasil têm graves problemas sociais. Dados referentes a 2004 estimam que o numero de pessoas presas hoje seja de aproximadamente 250 mil, sendo 90% do sexo masculino. Cerca de 70% dessa população carcerária não possui ensino fundamental completo. Segundo dados do DEPEN, estima-se que em 2007, esse número chegue a 480mil.
e) Religião: numa sociedade de mercado, o cristianismo é visto como mais uma opção religiosa dentre outras. Há uma tendência dos pastores de se tornarem pragmáticos. A doutrina da salvação do pecado pela graça cede lugar à salvação dos problemas econômicos, sociais e emocionais. Os pastores de almas deram lugar ao pastor executivo, ao apresentador. A igreja dos santos assemelha-se cada vez mais a uma empresa, uma associação que alavanca fundos para fins muitas vezes inconfessáveis. Logicamente a igreja não pode fechar os olhos para a realidade social, mas quando isso se torna o coração da igreja, então começa a cheirar algo de podre na igreja. Quando até o sal se torna insípido, então o perigo é iminente.
Uma nação é mais que uma organização. É um organismo vivo. E como todo organismo sofre quando seus órgãos não funcionam em compasso com o todo.
O Brasil não deslancha porque suas instituições estão doentes. Ironicamente os fatores que levaram o Brasil à derrota na Copa também estão presentes na vida nacional, ou seja: entrosamento, garra, liderança, preparo e concentração. Podemos ver um paralelo dessa situação no livro de Miquéias quando fala de Israel.
No tempo do profeta Miquéias a situação do povo de Judá e Israel eram também de grandes desafios. A corrupção era generalizada. Na política, os governantes arrancavam o couro do povo (3.1-3). Os juízes vendiam sentenças (3.11). A liderança era focada nos interesses próprios. A injustiça social era gritante. Os ricos dominavam pela força e pela mentira (6.12). A desagregação familiar era evidenciada pelas intrigas entre seus membros (7.6). As relações sociais eram péssimas. Não se podia confiar nem mesmo no próprio amigo (7.4-5). Vemos aí uma sociedade fragmentada, sem entrosamento e falta de garra pela busca do bem comum.
Os sacerdotes ensinavam por interesse e os profetas pelo dinheiro (3.11) e o povo caiu na idolatria e prostituição espiritual. Foram induzidos ao erro pelos próprios profetas. Estavam alheios à iminente ruína.
Em Mq 6.8, Deus chama o povo e diz o era preciso fazer: praticar a justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com Deus (6.8). Eram necessárias três condições. Em primeiro, um país que exerça justiça em toda escala social. Em segundo, uma distribuição equilibrada das riquezas (material, intelectual, cultural). E em terceiro, uma fé bem alicerçada em Deus.
A cura para esse estado em que o Brasil se encontra não é simples e não há soluções mágicas. É preciso muita vontade e esforço para mudança. Os cristãos devem se envolver de modo sério e sistemático na transformação da sociedade. Precisamos também de cristãos na política, obedecendo a ordem de Jesus, sendo o sal e a luz em todos os lugares.
Se Deus não desistiu de Israel, nós também não temos a liberdade de desistir de um Brasil melhor para nossos filhos.
Toda e qualquer ação renovadora começa pela mudança de atitude pessoal, pois uma ação cristã é impossível sem uma mente cristã.