O que aconteceu com a ética protestante?

Max Weber (1864-1920), em “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, considerado o livro do século, percebeu a forte relação entre o pensamento protestante e o desenvolvimento do capitalismo ocidental. O capitalismo não é resultado da Reforma Protestante, mas seus princípios influenciaram com tal vigor o sistema econômico que moldaram o espírito do capitalismo moderno.

Os ideais dos reformadores (Calvino, Lutero, Zuínglio, Menno, George Fox e John Wesley) eram puramente religiosos mas acabaram respingando para política da época. Os cristãos sentiam que tinham uma vocação como filhos de Deus, cujas características consistiam em ter vida simples, trabalho especializado e espírito empreendedor. A isso Weber chamou de “espírito ascético” que foi fator comum às várias correntes protestantes que pipocavam na Europa, como veremos a seguir.

A corrente calvinista (presbiterianos) cria que o mundo existe para a glorificação de Deus, e somente para este fim. O cristão eleito está no mundo apenas para enaltecer esta glória, cumprindo Seus mandamentos o melhor que puder. Além disso, Deus requer obras sociais do cristão porque Ele deseja que a vida social seja organizada segundo Seus mandamentos e de acordo com aquela finalidade. Este caráter é assim partilhado pelo trabalho na vocação que serve à vida em comunidade. O Deus do calvinista requeria de seus fiéis não apenas “boas obras”, mas uma vida de boas obras, coordenada num sistema unificado.

As comunidades batistas desejavam ser igrejas puras no sentido da inocente conduta de seus membros. Os sinais infalíveis da redenção eterna eram: o repúdio sincero ao mundo e de seus interesses; submissão incondicional a Deus, que nos fala pela consciência e conduta coerente com a fé. Esse distanciamento dos poderes políticos, por outro lado, fortaleceu a moral ascética na vida profissional dos batistas.

Os puritanos criam que quando Deus aponta para Seus eleitos uma oportunidade de lucro, este deve aproveitá-la. Mas esse aproveitamento deve ter um propósito, que é glorificar Deus. Sendo criado à imagem e semelhança de Deus, o empreendedor faz uso de sua capacidade dada por Deus, atendendo a esse chamado, aproveitando a ocasião que lhe é apresentada. Procedendo assim ele estará honrando ao seu Senhor.

John Wesley fundador do movimento metodista recomendava seus discípulos serem laboriosos e econômicos. Sua preocupação era a apostasia gerada pelo excesso e amor às riquezas, despertando a ira, os apetites da carne e do mundo e a soberba da vida. Assim, embora permaneça a forma da religião no cristão, se tornaria um espírito oco. Então ele recomendou: “ganhem tudo o que for possível, economizem o máximo possível e dêem tudo o que podem, para assim crescer na graça de Deus e amealhar tesouro no céu”.

A riqueza, desta forma, é condenável eticamente, só na medida que se constitui tentação para a vadiagem e para o aproveitamento pecaminoso da vida. Sua aquisição é má somente quando é feita com o propósito único de garantir uma vida posterior mais feliz e sem preocupações. Mas se considerada dever vocacional, ela não é apenas moralmente permissível como diretamente recomendada.

Weber termina sua exposição com uma previsão sinistra. Ele percebeu que o materialismo estava exercendo crescente influência sobre os protestantes com força jamais vista na História. Ele disse que nos EUA a procura da riqueza, “despida de sua roupagem ético-religiosa, tende cada vez mais a associar-se com paixões puramente mundanas, que com freqüência lhe dão o caráter de esporte”.

Passados 100 anos, o que vemos é o estabelecimento do materialismo nos quatro cantos do planeta. Se Weber estivesse vivo, se surpreenderia ao notar que o comunismo marxista, em ascensão, sucumbiu diante do capitalismo na última década do século XX. Por outro lado, provavelmente ficaria satisfeito ao ver que sua observação relativa aos protestantes se confirmou. O capitalismo contemporâneo divorciou-se da ética protestante.
Quais foram os principais fatores que contribuíram para isso? A resposta está nas palavras de Jesus, que disse: “foram sufocados com os cuidados, riquezas e deleites da vida; os seus frutos não chegam a amadurecer (Lc 8.14)”. Aí é que está a chave do problema. Os evangélicos (protestantes), estão se afastando gradualmente da Palavra de Deus (Bíblia) e afrouxando os valores cristãos, tornando-se cúmplices do pensamento pós-moderno, cujas características são a ausência de permanência, constância e fidelidade.

Durante a fase heróica do capitalismo, a dedicação (a Deus), ao trabalho e ao bem da sociedade eram tidos como elementos de glorificação a Deus. A aplicação sistemática, fiel e abrangente dessa linha de pensamento refletiu fortemente no cotidiano dos cristãos, integrando todos os aspectos da vida. Hoje o que vemos é o esfacelamento dessa cosmovisão e a conseqüente perda de interesse pelas “coisas do alto”. As coisas terrenas adquiriram destaque especial na vida dos cristãos. Assim, o sucesso da vida não é mais alcançar os galardões do céu, mas vida abundante nos assuntos terrenos.
O ensaio de Weber fé e riquezas estavam relacionadas. Hoje essa relação persiste. No entanto, as justificativas para fazer essa conexão já não são as mesmas dos reformadores. Veremos como a teologia da prosperidade interpreta hoje esses mesmo elementos.

Em primeiro, a fidelidade a Deus. Aquele antigo sentimento de dedicar a vida e os bens a Deus como sinal da conversão, gratidão e amor desinteressado foram substituídos pela barganha. Agora falam de Deus como Banco de Investimentos, que está aí para dar oportunidades, vida feliz e próspera. Preferem um Deus leve, solto, sem muitas exigências, que respeite a privacidade de seus filhos e que apareça mais para dar uma força na hora que o bicho pega.

Em segundo, o trabalho. Nessa teologia, o trabalho abençoado é aquele que o faz cabeça e não rabo. Não basta trabalhar dignamente; é preciso querer mais, pensar grande, pois Deus é o dono da prata e do ouro. Os grandes vilões do sucesso são a pobreza, as duplicatas vencidas e os oficiais de justiça que perseguem o cristão. Então é preciso recorrer a Deus e aos pastores ungidos para manter esses inimigos bem longe.

Em terceiro, as riquezas. O que importa é o ajuntamento de riquezas aqui e agora. Deus tem endereço certo na terra, onde prometem resultados concretos. A riqueza é sinal maior da bênção de Deus. O tesouro no céu (Mc 10.21), o bom combate (2 Tm 4.7), a volta de Cristo (II Ts 1.1-2) e o juízo final (I Ts 5.1-3) ficaram em segundo plano.

Ao longo dessa exposição, vimos que no passado a fidelidade a Cristo e aos seus mandamentos tiveram forte impacto no cotidiano dos cristãos de várias correntes protestantes na Europa e EUA. O “espírito ascético” mudou a cara do capitalismo. Hoje o cenário é diferente. Os tempos mudaram, mas o mandamento de Jesus ordenando que seus seguidores sejam luz deste mundo, continua em pé.
Embora o quadro seja, a princípio, desanimador, nada surpreende a Deus. Cristo tem toda autoridade sobre a terra. Ele suprirá o cristão de toda necessidade legítima e a dará de graça, sem precisar recorrer a barganhas. Ele disse: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o principio e o fim. Eu, a quem tem sede darei de graça da fonte da água da vida. O vencedor herdará estas cousas, e eu lhe serei Deus e ele me será filho (ap 21.6-7)”.

Desta forma, lideres cristãos como Calvino, Lutero e Wesley fizeram diferença nas sociedades em que viveram. Cabe a nós fazer o mesmo, pois essa é a nossa missão: ir, multiplicar seguidores do Caminho, "ensinando-os a guardar todas as cousas que vos tenho ordenado (Mt 28.20)". Sua palavra nunca volta vazia.

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