
A Londres vitoriana era movimentada e cheia de vida durante o dia. À noite, porém, era diferente. O nevoeiro, o ar frio e a fraca iluminação davam à cidade aspecto sombrio e deserto. Nessa hora, aconteciam coisas estranhas. Um homem pega e ataca violentamente a menina de 10 anos, pisoteando-a repetidas vezes.
Tempos depois, Sir Danvers Carew, importante político, é morto a golpes de bengala. A policia descobre pelas testemunhas que esses crimes foram cometidos por Mr. Edward Hyde. Foi descrito como inescrupuloso, franzino, desajeitado, andando vestido com roupas grandes demais para ele. Morava num sobrado esquisito e sem janelas. Esse prédio ficava nos fundos da elegante casa do Dr. Jeckill.
Mr. Gabriel Utterson, advogado e amigo de Jeckill, fica preocupado com a relação que o médico mantém com Hyde. O cliente, cujo testamento estava em posse do advogado, doa tudo ao seu protegido após sua morte ou desaparecimento. Por quê o conceituado médico seria tão benevolente a ponto de fazer tal loucura?
Certa noite, Utterson soube que Jeckill estava há dias trancafiado no escritório. Os empregados se sentiam apavorados, ouvindo estranhos ruídos. Ao arrombarem a porta, deparam com Hyde, sozinho, estendido e morto no chão. Do médico só encontram a carta de confissão.
Jeckill revela ser o monstro. Desde a juventude ele queria dar vazão às suas paixões, sem nenhuma restrição, moral, ética ou religiosa. Como então resguardar sua reputação? A solução encontrada foi levar duas vidas distintas. Durante o dia era o respeitado Dr Jeckill; à noite, o arruaceiro anônimo e libertino.
Com o passar do tempo, cogitou a possibilidade de separar as duas identidades. O primeiro trilhando o caminho da decência e do dever; o segundo, sendo livre de culpas, seguiria seu destino sem prejudicar o primeiro.
Suas experiências o levaram a uma droga que lhe permitia realizar tal façanha. Ao ingerir a substância, o bondoso Dr Jeckill se transforma no malvado Mr Hyde.
No inicio, o cientista tinha pleno controle da situação. Podia manter as duas personalidades bem compartimentadas. O fato de Jeckill manter cumplicidade e adular Hyde permitiu que este se tornasse mais forte e ganhasse mais espaço sobre a vida do médico. De repente, a mudança passou a acontecer involuntariamente. Para tentar inibir Hyde, o médico precisava de doses cada vez maiores da droga. Mas já era tarde, o estrago estava feito.
No final, o medico foi vencido e absorvido pela criatura. Foi o seu fim. Hyde se suicida não suportando a pressão da iminente prisão e condenação.
Esta história, cujo título original é "The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde", publicado em 1886 por Robert Louis Stevenson, mostra o conflito entre o bem e o mal que existe dentro de nós.
A verdade é que todo Jeckill tem um Hyde, que ele é incapaz de controlar e que ameaça subjugá-lo. É chamado na Bíblia de “velho homem”, “natureza terrena” e “carnal”.
Como indivíduos, precisamos de certo grau de privacidade onde se materializam os sonhos de identidade e de realização. Como seres sociais também fazemos parte do mundo público, o espaço das relações humanas, da economia, política, ciência e das causas sociais.
A tentativa de manter esses dois mundos estanques a ponto de cada um deles ter seu próprio conjunto de valores, leva as pessoas à hipocrisia a ao esfacelamento do caráter.
Um exemplo atual que ilustra o conflito existente entre esses dois mundos é o que o senador Renan Calheiros tem passado. Nas últimas semanas, o senador tem se destacado na mídia pela confusão que arrumou para sua vida. O caso extraconjugal com a jornalista Mônica Veloso lhe rendeu uma filha em 2004. Pesa agora sobre ele a acusação de que as despesas com Mônica e sua filha teriam sido financiadas pela empreiteira Mendes Junior.
No dia 28 de maio, o senador fez um discurso no Senado Federal, onde afirmou: “Nunca misturei o público ao privado. Os recursos estão todos declarados no meu imposto de renda, bem como a própria pensão alimentícia”. O presidente do Senado classificou os desdobramentos da reportagem da revista “Veja” como um “falso escândalo” e negou ter relações com a construtora Mendes Júnior.
Em sua defesa, Renan disse que pagou tudo com recursos próprios provenientes das atividades agropecuárias, basicamente venda de gado. Mas essa versão tem sido fortemente contestada após investigação mais minuciosa. Cada vez que ele tenta desmentir as acusações, mais enrolado fica, pois tem mostrado que sua vida privada não avaliza a pública.
Jesus disse que “quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco também é injusto no muito (Lc 16:10)”. Disse também que “não é o que entra pela boca o que contamina o homem, mas o que sai da boca, isto, sim, contamina o homem (Mt 15:11)”. Em outras palavras, quem é justo na sua privacidade, será também na vida pública. Todo erro tem sua origem na intimidade e quando vem à tona instala-se o escândalo.
Assim, temos que nos precaver não alimentando nem adulando o Hyde de nossas vidas. No principio Deus nos criou perfeitos e bons, mas o pecado provocou a dualidade da personalidade humana. O bem divide espaço com o mal, que foge ao nosso controle.
Como homens e mulheres criados à imagem e semelhança de Deus, preservamos esses vestígios apesar de sermos pecadores. Por isso é que, de uma maneira geral, todos os seres humanos preferem a justiça à injustiça, a liberdade à opressão, o amor ao ódio e a paz à violência. Este fato de observação cotidiana gera esperanças de mudança social. A maioria das pessoas alimenta visões de um mundo melhor.
O mundo melhor começa com a mudança interior, o novo nascimento, que vem somente com a graça e poder de Deus em Jesus. Somente a restauração que vem por Cristo pode derrotar o Hyde que existe dentro de nós.
Eu vim como luz para o mundo, a fim de que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas (João 12:46).