
Embora caminhando juntas nesta dimensão limitada e humana que chamamos de tempo, ciência e religião parecem se digladiar continuamente desde sempre. Na realidade, as arestas parecem se acentuar em períodos de manifestações culturais intensas ou descobertas científicas de impacto. Alguns por exemplo, defendem que o divórcio entre a fé religiosa e a ciência é um evento mais recente e o cisma ideológico começou com o Iluminismo em fins do século XVIII que preconizava o uso da razão para explicar o mundo e o universo. Já no século XIX o inglês Charles Darwin impactou o mundo com a sua Teoria da Evolução das Espécies, que de alguma forma negava a criação bíblica. A partir de então as divergências entre o mundo da ciência e o da religião assumiram contornos de uma guerra cultural.
Teorias como a do “Big Bang” que originou o universo como o conhecemos fisicamente pressupõe de acordo com o “Segundo Principio da Termodinâmica” uma fonte primária pré-existente com quantidade de energia tendendo a infinito; o que implicitamente leva a pensar também em “algo” com capacidade de gerar uma infinidade de corpos e sistemas com uma organização, encadeamento e ordem ainda não compreendida na sua totalidade, e que deveria existir antes deste “principio”.
De acordo com uma das teorias mais aceitas no meio científico, as primeiras formas de vida na Terra teriam aparecido nos oceanos e posteriormente migrado para o continente. Paralelamente, na descrição bíblica do processo de criação em Gênesis 1:20 (50 dia) é interessante observar que a vida foi criada primeiro no oceano e posteriormente apareceram as outras formas no continente. Isto mostra uma inesperada concordância da ciência com a religião.
O que eventualmente requer uma reflexão mais detida é a escala de tempo da teoria da evolução e a do processo de criação descrito na Bíblia. Ainda com relação ao “tempo” conforme o conhecemos, embora rejeitando a sobreposição de religião e ciência, o conhecido físico inglês Stephen Hawking reconhece em um espasmo agostiniano em seu livro “Uma breve história do tempo” que o tempo teve um começo (criado por Deus segundo Santo Agostinho, 354 – 430) e terá fim.
Embora fazendo parte de uma minoria (menos de 3% da comunidade científica mundial) de cientistas cristãos, o Prof. Francis Collins – Diretor do Projeto Genoma e que em 2001 coordenou o estudo do mapeamento do DNA humano, propõe que é possível aceitar as teorias de Darwin e ao mesmo tempo exercitar a fé religiosa. Segundo o Prof. Collins em seu livro The Language of God, “As sociedades precisam tanto da ciência como da religião. Elas não são incompatíveis, mas complementares”.
As questões cruciais levantadas pelo Prof. Collins são aquelas experimentadas pela quase totalidade dos cristãos e que transcendem a ciência e fazem parte da natureza e existência humana: “O que acontece depois da morte?” ou “Qual é o motivo de eu estar aqui?”. Estas são questões que realmente a ciência não tem condições de responder de forma objetiva. Ainda de acordo com o Prof. Collins: “Não é certo negar aos seres humanos o direito de acreditar que a vida não é um simples episódio da natureza, explicado cientificamente e sem um sentido maior”.
Assim, à luz de uma meditação ponderada sem preconceitos e extremismos emerge a conclusão de que fé e ciência não são excludentes, mas complementares, como o são matéria e espírito.
(Nelson Arai é físico e meteorologista no INPE. Membro da IMeL em Pinda)