
Na década de 70, arqueólogos trouxeram a público uma surpreendente descoberta: o “Evangelho de Judas”. Foi encontrado no Egito e escrito há cerca de 1.700 anos pelos gnósticos. Essa descoberta, a tradução e posterior publicação, reacendeu a discussão de um dos mais polêmicos personagens bíblicos-Judas Iscariotes.
Tradicionalmente Judas sempre foi tido como o traidor de Jesus. A grande novidade é que esse texto sugere que Judas, na verdade, provou a fidelidade ao entregar Jesus. Foi um nobre gesto de cooperação. Submeteu-se à difamação em nome da sua amizade ao mestre, que lhe confidencia segredos, que agora estão em posse dos gnósticos.
À primeira vista, parece ser um argumento convincente. Afinal, poderia alguém argumentar: -As profecias bíblicas do VT indicavam que o Messias seria traído em troca de 30 moedas de prata. O mestre estava predestinado a morrer. Então, alguém tinha que fazer o trabalho sujo.
Além disso, diria outro: - Jesus afirmava que seria traído por um dos seus discípulos. Então, Judas foi apenas um canal da soberana vontade divina. Assim sendo, ele não tinha alternativa senão render-se ao que é irresistível.
Num estudo mais minucioso, percebemos que essa versão não se sustenta. Jesus não o vê como cooperador, mas qualifica-o como o “filho da perdição”, como aquele que “melhor lhe fora não haver nascido”. Ao que tudo indica, no inicio, quando Judas se integrou ao grupo dos doze, era um homem de virtudes. Respondeu ao chamado de Jesus, seguindo-o. Foi até nomeado tesoureiro. Mas seu caráter foi se tornando mais e mais sombrio à medida que o ministério terreno de Cristo ia se completando. Já nos últimos dias que antecederam a crucificação, seu caráter já está bem definido. Vemo-lo um homem ganancioso, ladrão e hipócrita. Um agente livre que foi permitindo lentamente ser tomado por um espírito maligno. Para entregar Jesus, negocia o preço junto aos sacerdotes. O preço da traição foi fechado em 30 moedas de prata.
Judas mostraria o local e a pessoa a ser presa. Este o identificaria com uma senha: um beijo. Vemos aqui a que ponto chegou seu cinismo. O beijo, o símbolo da amizade, foi tido como o símbolo da alienação.
Judas, sabendo depois que Jesus fora condenado, cheio de remorsos, atira as moedas ao santuário, retira-se e encontra uma morte violenta. Ele se enforca, precipitando-se ladeira abaixo.
Mas Judas está longe de ser o único responsável pela morte de Jesus. Várias pessoas estavam envolvidas. Primeiro Judas, que embriagado pela ganância fatal, entregou Jesus aos sacerdotes. Em segundo os sacerdotes, que cegados pela inveja entregam-no a Pilatos. Em terceiro, Pilatos dominado pelo medo e covardia, entrega-o aos soldados para o crucificarem.
O quadro do processo do julgamento, condenação e execução de Cristo na cruz, deixa-nos terrivelmente indignados. Ali houve um misto de injustiça, crueldade e a glorificação do que há de mais baixo na natureza humana. É nesse momento de prostração perante a flagrante derrota que ressurge o Cristo vitorioso. Jesus ressuscita dentre os mortos, anunciando a salvação. Jesus disse: Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida. (Jo 5.24).
Desta forma, a morte de Jesus deve ser vista sob dois planos. O primeiro é o plano terreno. Nesse plano, sua morte foi resultado da ação direta de Judas, dos sacerdotes e de Pilatos. O segundo é o plano divino. Deus, na pessoa de Jesus dá sua vida voluntariamente na cruz. Seu nascimento, vida e morte foram preditos em inúmeras passagens bíblicas para que cumprisse a determinação de Deus de tornar realidade a redenção da humanidade.
A ganância, a inveja, a covardia, são realidades da alma humana, que denunciam a queda, o pecado e o abismo que há entre nós e Deus. Aquela nossa imagem e semelhança de Deus originais da criação foram distorcidas. Todos nós estamos enquadrados na categoria de pecadores, pois nós temos também parte na crucificação.
Então Deus, numa atitude de amor sem limites, profetiza dizendo que “este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” Gn 3.15. Essa promessa dada no Eden foi o prenuncio da vinda de Cristo. Jesus deu sua vida espontaneamente para mim, para você, para todo o mundo.
Jesus disse: Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas. Jo 10.11