
Na biblioteca da escola onde fazia o segundo grau, havia uma enorme Bíblia aberta sobre o pedestal no hall de entrada. Certamente o local era privilegiado, bem visível e convidativo para quem quisesse ler o texto do dia cuja página era virada cada dia pela bibliotecária.
O Livro dos livros estava lá nesse lugar de destaque à espera de leitores. Mas quantos em meio à pressa e preocupações pessoais daria alguns segundos que fosse para buscar na Bíblia algo de valioso para seu coração?
Que impacto esses textos poderiam causar ao leitor? Ao deixar o local e logo se compenetrar em outros pensamentos ainda haveria possibilidade daquela leitura fazer diferença em sua vida?
Em geral as pessoas acham que a Bíblia tem mensagens bonitas, fala de coisas boas, artistas e políticos citam versículos bíblicos em seus discursos, da mesma forma como citam outras fontes.
Agora, se tentarmos avaliar até que ponto a Bíblia afeta a vida desses cidadãos, aí a conversa muda de figura.
Davi, o rei de Israel, num momento dificílimo de sua vida disse: “Em paz me deito e logo pego no sono, porque, Senhor, só tu me fazes repousar seguro (Sl 4.8)” e “A lei do SENHOR é perfeita, e restaura a alma (Sl 19.7)”. Você poderia endossar o que foi dito por Davi?
O estudo feito pela Federação Bíblica Católica com 13 mil pessoas de nove países como EUA, Itália, Alemanha, Polônia, todos países considerados abertos para a fé cristã, mostrou que muitos sentem a proteção divina, mas vago conhecimento bíblico para fundamentar esse “sentimento”.
Perguntas simples da Bíblia como: "Os evangelhos são parte da Bíblia?", "Jesus escreveu livros da Bíblia?" e "Quem, entre Moisés e Paulo, era um personagem do Antigo Testamento?", eram de conhecimento de não mais de 20% dos entrevistados. Os americanos leram mais passagens da Bíblia (75%) nos últimos 12 meses, contra 20% dos espanhóis. Os poloneses são mais freqüentes nas igrejas (55%), contra 6% dos russos ortodoxos. Americanos se sentem mais protegidos por Deus (86%) que os franceses (47%). Finalmente os poloneses são os que mais crêem que a Bíblia é a Palavra de Deus interpretar literalmente os textos.
Creio que essa estatística é decorrente de dois problemas que acabam dificultando a compreensão mais clara das Escrituras.
O primeiro é a dificuldade de relacionar a Bíblia aos grandes desafios da vida. Do nosso nascimento ao ocaso, passamos por múltiplas indagações, conflitos, dores, perdas, protestos e ideais. A Bíblia sendo escrita há milênios, parece peça de museu aos homens e mulheres do mundo moderno.
Um exemplo que uso para ilustrar essa situação é o desenho animado “Os Simpsons - o filme (2007)”, onde o pai de Homer tem um desmaio e alerta que há problemas no futuro. Questionado a explicar esse comportamento, Homer folheia a Bíblia e resmunga: “Este livro não tem resposta nenhuma”.
Jesus afirmou que a terra e os céus passarão, mas a Palavra de Deus permanecerá eternamente.
Isso quer dizer que ela prevalecerá sobre tudo o que é transitório. Até pouco tempo achava-se que o universo era eterno, mas Jesus estava certo. Tudo passará ... exceto Sua Palavra. A Bíblia é perfeitamente aplicável e relevante para o nosso tempo e será às futuras gerações.
Assim, devemos ter a habilidade de expor a Bíblia com sensibilidade ao mundo moderno sem abrir mão da fidelidade aos textos originais, retirando apenas a roupagem cultural e expondo a essência da Palavra imutável de Deus. Portanto, é preciso aliar o acesso a Bíblia ao ensino. Há muitos "eunucos” (Atos 8) entre nós que estão dizendo: - Como poderei entender, se alguém não me explicar?
O segundo é a gradual perda de foco da igreja neste mundo relativista, cético e pragmático. O apóstolo Pedro (II Pedro 2) exorta os crentes a se firmarem na verdade e lutar contra os ventos das falsas doutrinas emergentes do próprio cristianismo. Esse perigo percebido por Pedro, continua sendo realidade na atualidade. As teologias bizarras se multiplicam distorcendo o fiel ensino apostólico.
Neste tempo pós-modernista as pessoas estão desesperadas em busca de sentido para a existência e também se angajar numa comunidade onde possam ter amador e aceitação. As Escrituras revelam que Deus falou e se fez conhecido mediante Jesus Cristo e sendo assim, não há outro intermediário entre Deus e homens. Nele está a luz que direciona e o amor que humaniza.
A igreja precisa ouvir a crítica de Jesus aplicada aos fariseus: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.” A Palavra de Deus precisa ser lida e anunciada com total respeito e vivacidade, de modo que através dela se faça ouvir a voz viva de Deus e a expectativa da Sua presença no meio do Seu povo. Necessitamos também uma atitude de sincero louvor e oração para que o povo de Deus possa dizer como Davi: “de manhã apresento a minha oração e fico esperando (Sl 5.3)”.
Vimos então que a Palavra de Deus, só será relevante quando os cristãos se dispuserem a tomar duas atitudes. Primeiro, explicar ao povo as Boas Novas de Deus por Jesus profetizada no Antigo Testamento e cumprida no Novo Testamento. Em segundo, obedecer a ordem de Jesus de ir e fazer discípulos pelo exemplo verdadeiro e sacrificial.
Fazendo assim, os cristãos não serão "inativos, nem infrutuosos no pleno conhecimento do nosso Senhor Jesus Cristo (II Pedro 1.8)".