
Maio foi o mês marcado pela visita de Bento 16 ao Brasil. Seus passos e discursos foram amplamente cobertos pela mídia local e internacional. A repleta agenda papal mostrou que, apesar da idade, o papa é um homem dinâmico. O pontífice canonizou Frei Galvão (o primeiro santo brasileiro), aconselhou sacerdotes e leigos católicos e disse que o fenômeno da globalização é uma conquista da grande família humana, mas ela só terá efeito positivo se for regida pela ética cristã. Ele falou diversas vezes ao público, mas o discurso de maior impacto foi proferido na abertura da 5ª Conferência Latino-americano e do Caribe. Esse sermão provocou reações diversas em vários segmentos da sociedade.
Os povos quéchua do Equador se manifestaram dizendo que o Papa “desconhece que os representantes da Igreja Católica, com honrosas exceções, foram cúmplices e encobridores de um dos genocídios mais horrorosos que a humanidade pôde presenciar”. Reação semelhante ocorreu entre os indígenas brasileiros.
Depois que Colombo aportou no Caribe (1492), iniciou-se um processo de conquista das terras que eram habitadas por nativos. A Igreja investiu pesado no Novo Mundo. Os padres acompanharam os navegantes, abençoando as terras descobertas e apoiaram a conquista. Vislumbraram nelas imensa seara para lançar sua semente e aumentar seu rebanho. Mas essa associação com o Estado se mostrou infeliz. A política dúbia dos monarcas europeus ora defendendo ora permitindo a escravização dos índios sob o silêncio eclesiástico maculou o trabalho missionário na época colonial.
Ruiz e Patrick Michel (jornal Le Monde) afirmaram que “a Igreja permanece fechada dentro de uma concepção ultrapassada por causa da sua lógica institucional”. Esses analistas acreditam que as alternativas que a Igreja apresenta não se adaptam à modernidade.
Nos anos 70, a Igreja se mantinha ocupada lutando com a teologia da libertação e não percebeu que, silenciosamente, surgia no seu horizonte outro adversário. Eram os chamados “crentes”, marcando o surgimento do plurarismo religioso no Brasil.
A ala evangélica que mais cresce são os pentecostais e os neopentecostais. Representam cerca de 20% da população brasileira. Há ainda outros desafios que o Vaticano tem que encarar. Os novos candidatos ao sacerdócio são escassos, a Igreja está perdendo influência política no país e ainda enfrenta conflitos com o Governo Federal. Recentemente D. Eugenio Sales criticou o Programa Nacional de DST e Aids. Lula respondeu dizendo que “é preciso acabar com a hipocrisia” e que “sexo é uma coisa que quase todo mundo gosta”, referindo-se indiretamente aos clérigos. Tradicionalmente a Igreja se opõe ao uso de camisinhas por violar o sacramento do matrimônio cuja finalidade principal é a procriação.
O teólogo Leonardo Boff, disse que “Roma tem medo do presente, da diversidade: tem medo da modernidade e do futuro. A Igreja continua seu caminho para dentro de si mesma, sem a dimensão do diálogo que ela tinha com Paulo VI e João XXIII, sem conversar com as ideologias, com as culturas modernas, sem procurar uma verdade mais plena, que seja boa para toda a humanidade”.
O franciscano afirma que foi injustiçado e humilhado pelo cardeal Joseph Hatzinger. Boff era um dos expoentes da Teologia da Libertação e foi obrigado a calar-se por ordem do cardeal e apoiado pelo então papa João Paulo II. Ele acha um absurdo a Igreja querer monopolizar a salvação. O Vaticano se considera a única e legítima intérprete os valores cristãos. De acordo com o teólogo, o espírito de Deus está em todas as partes e Deus, olhando a humanidade, vê todos os seus filhos; não olha só para o Vaticano.
Todas essas manifestações nos fazem perceber que o mundo rejeita a Igreja como “detentora da verdade”. Comparam-na a um dinossauro a caminho da extinção pela sua incapacidade de adaptação à modernidade. São vistos como defensores de uma moral que ninguém mais aceita. Essas opiniões contrárias se justificam, pois o inicio do século XXI é marcado pelo ceticismo à verdade, à objetividade, `a universalidade e à realidade, ou seja, vivemos numa sociedade que acredita que nenhuma pessoa ou grupo detém o monopólio da verdade.
Em Atos 4.10-12 Pedro diz que “Ele (Jesus) é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta por cabeça de esquina. E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos”.
A Bíblia afirma que só em Jesus encontramos a salvação. Como essa mensagem poderá ser relevante aos nossos amigos, vizinhos e à sociedade? Como poderemos ser a “consciência da sociedade” convencendo-os que o evangelho é essencialmente benéfico para todos, mesmo convivendo com outras religiões?
As respostas a esses questionamentos estão na própria Bíblia. Ela é de fato a Palavra de Deus eterna e imutável. Responde de modo satisfatório aos dilemas enfrentados pelas gerações e culturas nas quais estamos inseridos.
Em primeiro, o cristianismo deve se aproximar mais de Cristo. O tradicionalismo da Igreja distorce a mensagem original de Cristo. Os cristãos devem se prender aos fundamentos da fé cristã, ou seja, afirmar a crença de que Deus se revelou plena e definitivamente em Cristo, não nas instituições do catolicismo ou do evangelicalismo. As instituições não podem se colocar como “donos” de Cristo. Jesus é o Senhor da igreja. Cristo ensinou isso ao repreender os fariseus que anulavam a graça de Deus valorizando mais as tradições farisaicas à essência da vontade divina. O cristianismo sem Cristo modelando sua doutrina e ações torna-se uma religião oca.
Em segundo, temos que aplicar a Palavra ao mundo e proclamarmos as boas novas que são novas e verdadeiras. A igreja fala ao mundo com mais autenticidade quando sua luz distintiva brilha ainda mais, não quando ela se adapta ao seu meio ambiente, tornando-a indistinguível.
Os cristãos não podem tentar impor padrões cristãos pela força a um público que não os deseja; tampouco permanecer calados e passivos enquanto tudo desaba ao nosso redor. O que devemos fazer é arrazoar com as pessoas sobre os benefícios da moralidade cristã, transmitindo a lei de Deus através de argumentos racionais. Elas são boas em si mesmas, como também universais em sua aplicação.
Em terceiro, temos nos preparar para o exercício responsável da cidadania, apoiando particularmente os leigos que se sentem chamados para assumir funções públicas. É necessário que os cristãos estejam presentes na militância de partidos políticos, em sindicatos e em associações profissionais para que a luz de Cristo brilhe em cada canto da vida e atividade humana. Nossa missão é permear o mundo com a boa e perfeita vontade de Deus lembrando que, embora estejamos no mundo, não somos deste mundo.
Em quarto, temos que ter a consciência de que a mensagem do evangelho contém certos aspectos tão estranhos ao pensamento moderno que ele sempre há de parecer loucura para os formadores de opinião. O apóstolo João diz que o mundo prefere as trevas à luz de Cristo; isso por mais que nos esforcemos para mostrar que o evangelho é de verdade e é de bom senso. Mas isso não deve nos desanimar, pois apesar de ser loucura aos olhos do mundo, é o poder de Deus para a salvação.
Concluindo, vimos que o cristianismo, católico ou evangélico, será relevante ao mundo somente se buscarmos a supremacia e unicidade em Cristo, não em instituições. O tradicionalismo católico distorce e enfraquece a mensagem do evangelho. O mesmo se pode dizer dos evangélicos que paparicam a teologia da prosperidade e o misticismo. A evangelização nos tempos coloniais veio acompanhada pela força bélica do Estado. A nova evangelização será bem sucedida somente com a força do amor genuíno.
Devemos proclamar o evangelho simples e puro, ou seja, a iniciativa reveladora do Pai pelas Escrituras, a obra redentora de Jesus na cruz e por meio dela e o ministério transformador do Espírito Santo. Paulo disse: Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado (I Co 2.2).