O papel do dízimo na teologia da prosperidade

Uma das características marcantes da modernidade é o hedonismo. Hedonismo é a busca frenética pelo prazer e conforto individual. Embora isto não seja novidade da atualidade, a moderna sociedade de mercado funciona como combustível para insuflar ainda mais essa filosofia de vida em pessoas, comunidades e instituições.
Sob essa perspectiva, o homem é avaliado pelas suas posses, suas roupas, sua aparência e seu marketing pessoal. O seu caráter fica em segundo plano. O dinheiro adquire importância vital nesse processo, pois é o elemento chave que viabiliza a satisfação desses desejos.

O hedonismo não atinge somente os incrédulos. A igreja cristã também tem sido influenciada, manifestando isso de forma muito clara na chamada teologia da prosperidade. Ela está se secularizando, mudando a verdade de Deus em mentira (Rm 1.25). A honra devida a Deus está sendo gradativamente transferida ao homem.

Deus é apresentado como um agente promotor da felicidade a nosso serviço. Este recompensa o devoto com múltiplos privilégios e promessas. Promessas que vão desde ótimos retornos financeiros a esperados arranjos matrimoniais. Como nada é de graça, é necessário que o indivíduo invista na aplicação mais rentável do mercado eclesiástico: o dízimo.
É uma idéia utilitarista da fé. Você faz a sua parte, dando fielmente o dízimo, que Deus fará a dele, abrindo as comportas do céu.

Nessas igrejas, os sermões e testemunhos veiculados pela TV têm caráter essencialmente humanista. O céu pode esperar. O que importa é o aqui e agora. Vida abundante virou sinônimo de prosperidade, riqueza e saúde. O repórter aborda fiéis chegando em luxuosos carros. Exibindo muita felicidade, relatam como conseguiram o sucesso nos negócios, a nova casa, o carro dos sonhos e outros objetos do desejo. A vida abundante pelo novo nascimento, as coisas do alto, as promessas para a eternidade e os valores do Reino de Deus são sistematicamente omitidos.

Uma certa igreja declara que “Os dízimos e as ofertas são tão sagrados e tão santos quanto a Palavra de Deus. Os dízimos significam fidelidade, e as ofertas, o amor do servo para com o Senhor. Não se pode dissociar os dízimos e as ofertas, o amor do servo para com o Senhor Jesus, uma vez que eles significam, na verdade, o sangue daqueles que foram salvos em favor daqueles que precisam ser salvos”.

Antes de aceitar tal afirmativa, temos que agir como os homens de Beréia (Atos 17.11). Eram cristãos de uma pequena cidade da Macedônia, na Grécia. Eles ouviram atentamente as palavras de Paulo. Porém, tiveram o cuidado de checar pelas Escrituras se o ensino era verdadeiro. Só então receberam a mensagem do apóstolo como vindas de Deus.

Em primeiro, a equiparação do dízimo à Palavra de Deus em grau de santidade.
Jesus disse: “Cegos! Pois qual é maior: a oferta ou o altar que santifica a oferta? Portanto, quem jurar pelo altar jura por ele e por tudo o que sobre ele está. Quem jurar pelo santuário jura por ele e por aquele que nele habita; e quem jurar pelo céu jura pelo trono de Deus e por aquele que no trono está sentado. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas!” Mt 23.19-23.
Aqui vemos que o valor do dízimo não está associado ao seu valor monetário, mas ao coração do dizimista. Se o dízimo é uma expressão sincera e legítima dirigida a Deus e a sua obra, então este é aceito. Há uma diferença entre dar a Deus e dar à igreja. Dar o dízimo à igreja, não significa necessariamente dar a Deus. Vemos aqui a incoerência da idéia da comparação. A palavra de Deus é justiça, misericórdia e fé. Ela é eterna, santa, imutável e testemunha do Deus infinito. Em contrapartida, o dízimo é um testemunho humano, provisório, mensurável, corruptível e relativo. O seu valor e significado ficam atrelados à postura do doador.

Em segundo, a correspondência inflexível entre o dízimo e a fidelidade a Cristo.
Jesus disse: “Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão e, depois, vem e apresenta a tua oferta”.Mateus 5.23 e 34
O texto acima mostra que o dízimo e a fidelidade não tem entre si uma relação causal inflexível. O dízimo não é uma prova definitiva de fidelidade. Alguns, como os fariseus, podem dar os dízimos, visando interesses particulares; o que é inaceitável a Deus. É necessária uma consciência limpa. Só então ela será expressão genuína de amor a Deus.

Em terceiro, a afirmação de que o dízimo significa o sangue dos salvos em favor dos não salvos.
Em Mc 14.22-24 está escrito: “E, comendo eles, tomou Jesus pão e, abençoando-o, o partiu e deu-lho, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo. E, tomando o cálice, e dando graças, deu-lho; e todos beberam dele. E disse-lhes: Isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que por muitos é derramado”.
Aqui entendemos que quem derramou o sangue pelos não salvos foi o próprio Jesus. Jesus veio para buscar e salvar o perdido (todos estão incluídos nessa condição). O justo morreu pelos injustos para que estes pudessem ter a oportunidade de salvação e reconciliação perante Deus.
Quando o salvo dá o seu dizimo, ele participa da salvação do perdido, em obediência à grande comissão ordenada por Cristo em Mateus 28. Participar não é a mesma coisa que dar a vida. Jesus deu sua vida, seu corpo, seu sangue. O fiel dá algo de si. O dízimo poderá ser usado para custear o trabalho evangelístico para alcançar os não salvos.

Jesus disse: “Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas. Mas o mercenário, e o que não é pastor, de quem não são as ovelhas, vê vir o lobo, e deixa as ovelhas, e foge; e o lobo as arrebata e dispersa as ovelhas. Ora, o mercenário foge, porque é mercenário, e não tem cuidado das ovelhas. Eu sou o bom Pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido” (Jo10.11-14).
Hoje há os novos mercenários. Estes se agregam ao rebanho porque descobriram que ali se pode ganhar muito dinheiro. No entanto, não amam o rebanho nem o Pastor do rebanho.

Falamos aqui das igrejas que tem adotado a nova teologia. Mas o vírus dessa teologia está em toda parte. Ela está presente nas pessoas que vivem na superficialidade da fé. São pessoas como o jovem rico que busca Jesus não para servi-lo, mas para que este lhe justifique o que mais ama, ou seja, suas riquezas.

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