
Quando criança, a passagem de ano sempre foi um momento encantador para mim. Era o final de mais uma etapa escolar. Podia dormir até mais tarde sem pensar em provas, trabalhos chatos e professores pegando no pé.
Nunca fui o melhor aluno. Competir nesse quesito estava fora do meu interesse. Além disso, não via sérios motivos para fazer meu futuro. Isso é coisa de gente grande, pensava eu. Obtendo o mínimo para passar de ano, dava-me por satisfeito.
Adorava brincar na rua com amigos, andar de bicicleta, empinar pipa, ler gibis e assistir aos Flinstones, Jetsons e Batman (em preto e branco, sem opção).
Se precisasse de algum dinheiro para meus pequenos gastos, simplesmente apelava para mamãe, que era mais condescendente. Na verdade, meu pai é que tinha o dinheiro, mas sempre era mais fácil e estratégico conseguir as coisas via maternal.
Outra coisa boa da infância era viajar. Isso sempre acontecia nos primeiros dias de janeiro. O roteiro era geralmente a casa de meus avós, que moravam na alta paulista, cerca de 700 km daqui. Sair da rotina, ver carros na estrada, cidades, montanhas, me deixava extasiado.
Apesar de ser irresponsável em muitos aspectos, tinha coração aberto para ser ensinado e vontade de acertar. Entendia bem a diferença entre o certo e o errado e queria estar cercado de pessoas boas. Enfim, nada diferente dos amigos da minha geração.
Hoje continuo gostando das festas de final de ano, mas não tem a mesma graça de antigamente. É claro que o momento de confraternização com a família é ótimo, mas, por outro lado, tenho algumas percepções a mais. Conheço o meu passado, o presente e tenho idéia do que será o meu futuro.
Encaro a vida sem fantasias, sei que ela não é seriada e previsível como na escola.
Sendo assim, além da diversão, invariavelmente me acompanham flashes de lembranças boas e ruins que aconteceram ao longo do ano e também a expectativa do que virá pela frente. Essa expectativa geralmente causa um frio na barriga. O receio do imprevisível e do incontrolável gera certa dose de ansiedade.
Muita gente sofre da síndrome do pânico só de acordar e ter de enfrentar o dia que começa. Quanto mais do ano que se descortina à frente!
Tudo isso revela o quanto somos frágeis e limitados. Apesar das grandes conquistas e avanços da ciência moderna, seja no campo da tecnologia, filosofia ou sociologia, o ser humano continua faminto e sedento de alimentos ainda não sintetizados pelo homem e certamente nunca haverá.
Jesus disse: “Porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo Pai, assim, quem de mim se alimenta, também viverá por mim. Este é o pão que desceu do céu; não é o caso de vossos pais, que comeram o maná e morreram; quem comer este pão viverá para sempre (Jo 6.55-58)”.
Porque Jesus afirmou isso? Basicamente por três motivos:
Primeiro, buscamos uma realidade acima de nós e além da ordem material. Algumas pessoas esperam ver uma estrela cadente como sinal de um desejo autorizado pelas forças cósmicas.
A Bíblia diz que você não precisa se curvar aos astros, pois o Criador se revelou em Jesus, que nasceu como homem há dois mil anos em Belém. Ele é a perfeita imagem do Altíssimo. Homens e mulheres que reconheceram essa realidade, se curvaram e o adoraram como Deus.
Mesmo entre os agnósticos, Jesus é considerado o maior homem de todos os tempos. Para nós, Ele é o único
Segundo, precisamos de sentido para viver. A sociedade atual sufoca nosso senso de valor pessoal e crença de que a vida tem significado. A tecnologia nos poupa do trabalho pesado e dá conforto, mas também pode desumanizar. A internet, por exemplo, virtualiza o diálogo na solidão digital. No Japão, há relatos de jovens que ficam dias trancafiados no quarto diante da tela do micro.
Cientistas (especialmente biólogos), acreditam que os seres humanos não passam de produtos do acaso e da evolução e os filósofos existencialistas dizem que a vida é um vácuo, mas recomendam que as pessoas vivam fazendo de conta que há algum significado (para evitar suicídios).
Terceiro, somos seres relacionais e por isso precisamos da família, amigos e também viver em sociedade exercendo nossa cidadania. Os seres humanos têm condições de discernir entre o bem o mal, bem como um grau de liberdade para encolher entre eles. Somos conscientes de uma ordem moral fora e acima de nós. É na convivência com o nosso semelhante que a integridade física, intelectual e moral é preservada. Do contrário nos tornaríamos esquizofrênicos. A santidade e a bondade se exercem no mundo real das pessoas. Jesus estabeleceu a igreja, seu povo, a nova sociedade, para fazer diferença e abençoar este mundo corrompido, impregnando-o com a mensagem de nova vida com Cristo.
Então vimos que a criança vive seu mundo de modo pleno porque é criança. Ela vive o dia, sem se preocupar com o amanhã, nem lamenta o passado. Se alegra com poucas coisas, admira seus responsáveis e adora seus amiguinhos. O adulto, por sua vez, tem grandes questionamentos, preocupações especialmente quanto ao futuro, sofrendo de ansiedade. A ansiedade é o sinal da nossa fragilidade e limitação.
Jesus veio como o bom pastor que acalma, alimenta e protege suas ovelhas. Quando lhe entregamos a vida, Ele se torna o nosso Senhor, encontramos a razão de viver e a alegria flui naturalmente por fazer parte da Sua família.
Assim, se permanecermos em Jesus, a jornada da vida passa valer a pena, pois quem não gostaria de viver como vive a criança? Jesus disse: “Quem não receber o reino de Deus como uma criança, de maneira alguma entrará nele (Lc 18.17)”.