Duas mulheres e dois segredos

O lixo é, sem dúvida, um dos grandes problemas da atualidade. São geradas diariamente cerca de 100 mil toneladas de lixo domiciliar em todo o país. Mais de 80% desse lixo é lançado em lixões a céu aberto ou em rios e córregos. Apenas 10% é colocado em aterros sanitários, que reduzem os danos ao ambiente e à saúde humana. A reciclagem alcança somente 1% do montante.

Estima-se que cada brasileiro produza em média quinhentos gramas de lixo por dia e, dependendo do lugar que mora e seu poder aquisitivo, pode chegar a mais de um quilo. O lixo é composto por 65% de matéria orgânica, 25% de papel, 4% de metal, 3% de vidro e 3% de plástico.

Essa montanha de lixo que produzimos é claro sinal do consumismo desenfreado que faz parte do nosso cotidiano. Estamos rodeados por intermináveis opções de produtos e serviços para atender nossas necessidades, sejam elas legítimas ou supérfluas.

A urbanização e a facilidade dos meios de comunicação multiplicaram as escolhas de relacionamentos entre pessoas. Formou-se o conceito de que pessoas também podem ser “consumidas” e posteriormente descartadas quando deixam de ser úteis, desejadas ou convenientes. Num mundo assim, virtudes como fidelidade e lealdade simplesmente vão para o lixo. Esse comportamento pode ser observado nos casamentos desfeitos, nas amizades rompidas, no trabalho escravizante e nos negócios antiéticos. Deste modo, não somente objetos vão para o lixão, mas também pessoas e relacionamentos estão fadados ao mesmo fim.

Michele é o exemplo gritante da desumanização. Foi tratada simplesmente como escória pela própria mãe. A menina, que recebeu esse nome pelos médicos, foi resgatada por um rapaz no dia 30 de setembro. Ela boiava, dentro de uma sacola, perto das pedras do rio Arrudas - Contagem (MG). Alguns dias depois seu quadro clinico se agravou e acabou morrendo de edema cerebral. Ela tinha no máximo dois dias de vida quando foi encontrada.

Elisabete, de 25 anos, planejou secreta e deliberadamente livrar-se da filha indesejada, esperando que o rio se encarregasse de dar fim ao corpo.
Ela livrou-se do seu problema (a menina), mas, como se viu, essa história ganhou novos e terríveis capítulos. O crime foi descoberto. Agora, ela está presa em cela especial para evitar linchamento e vai responder a processo por homicídio doloso, podendo pegar alguns anos de cadeia. Outro estigma ainda mais difícil de apagar será a lembrança e o remorso desse ato, que a perseguirá por toda a vida.

Felizmente nem tudo está perdido. Nem todas as mães atiram seus filhos no rio como se fossem objetos. Houve uma que fez isso para lhe dar chance de sobrevivência. O relato começa quando os judeus que viviam no Egito antigo se tornaram prósperos e numerosos. O faraó percebeu que isso representava ameaça real ao seu império. Resolveu se antecipar prevendo o pior. Escravizou os adultos e mandou eliminar sistematicamente as crianças do sexo masculino.
Em meio a essa trágica política infanticida, essa mãe levita viu que não podia mais ocultar seu bebê. O inevitável choro chamava a atenção dos soldados. Ela não viu alternativa senão colocá-lo às pressas dentro do cesto impermeabilizado, que foi boiando rio abaixo.

Mais adiante, já longe da mãe, o cesto foi avistado pela criada da filha do faraó. A princesa teve compaixão da criança e o criou como se fosse seu próprio filho, o príncipe do Egito. Recebeu o nome de Moisés, que significa “retirado das águas”. Ele foi educado e treinado para ser o futuro faraó. Muitos anos depois, Moisés comandou o êxodo dos judeus rumo a Canaã. A mãe verdadeira de Moisés confiou que Deus guardaria o filho.

Vemos aqui duas mães e dois segredos. Ambas tinham bebês, que eram o centro de suas preocupações. Ninguém poderia suspeitar de seus planos. Queriam ficar no anonimato mesmo que os bebês fossem encontrados por alguém. As semelhanças se completariam não fosse um detalhe discordante: as intenções de ambas. A primeira desejava a morte da criança e a segunda, a vida. O resultado foi o que vimos acima. Vamos nos ater então a três princípios básicos que, se observados, poderão promover a vida e a felicidade não somente para a família, mas também para toda a sociedade.

Primeiro, nenhuma vida pode ser considerada escória. O ser humano tem a dignidade atribuída por Deus, pois ele nos criou à sua imagem e semelhança. Por essa razão “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. (Jo 3:16)”.

Segundo, os pais têm papel crucial na determinação do futuro de seus filhos, criando os alicerces do caráter através do ensino e exemplos no lar. Quando os pais dão o amor e condições apropriadas de desenvolvimento aos seus, gera-se o efeito dominó, beneficiando toda a sociedade a longo prazo.

Terceiro, o melhor que podemos fazer como pais é entregar o destino de nossos filhos aos cuidados de Deus. Sua mão oculta, mas presente, cuidará de suas vidas. A mãe de Moisés é exemplo para nós.

Concluindo, vimos que duas mulheres impuseram destinos diferentes aos seus filhos. A primeira, quis simplesmente livrar-se de um problema como se livra do lixo caseiro. A segunda, quis livrar a criança do problema.
A mãe de Moisés fez o que Deus fez por nós. O nosso problema é o pecado (natureza corrompida) que carregamos em nossos corações. Deus nos enviou Jesus Cristo, seu Filho, o Deus feito homem, para nos libertar do pecado e daquele que deseja a nossa morte, o príncipe das trevas, a antiga serpente (Ap 12.9). Quando temos a viva presença de Jesus dentro de nós, tudo o mais se torna como refugo, pois nada é tão vital e importante como tê-lo (Fl 3.8).

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