
O Dia das Mães é sempre um bom motivo para nos reunirmos na casa da mamãe. Somos todos filhos quarentões, mas lá nos tornamos seus filhinhos; e a criança que existe em nós aflora, trazendo a gostosa sensação de acolhimento e afeto. É o nosso lar. O relacionamento mãe-filho (a) é bastante lembrado por razões óbvias. O amor materno é singular. A mãe fica mais junto da criança, principalmente nos primeiros anos de sua vida.
Infelizmente muitas crianças só experimentam a indiferença e a crueldade de seus pais e essas experiências ficam permanentemente gravadas no subconsciente afetando o desenvolvimento delas.
Um filme que retrata claramente o sentimento da criança em relação à mãe é o drama “Inteligência Artificial” (2001, Steven Spielberg). O personagem, um menino-robô, conclui em seu raciocínio infantil que ele só teria o amor materno se conseguisse virar um ser humano.
No final do filme, fiquei incomodado com uma pergunta: Por quê sua mãe não o amou plenamente? Ele foi descartado do mundo dos homens, embora tivesse todas as virtudes de um ser humano. Tornar-se gente seria de fato a solução?
A história se passa num futuro distante, onde a terra e a humanidade passaram por grandes transformações. As cidades costeiras desapareceram por causa do aquecimento global. Robôs passaram a suprir a carência de mão-de-obra e se tornaram capazes de fazer praticamente tudo, desde trabalhos domésticos a serviços sexuais.
O Professor Hobby, da Cybertronics, projeta um robô capaz de amar ao estilo humano. Ele idealiza uma criança-robô, de nome David.
O casal Henry e Mônica Swinton são escolhidos para testar a eficiência do protótipo. Henry é funcionário de confiança da empresa.
A principio Mônica resiste. Mas, aos poucos Mônica se deixa conquistar por David. Por fim ela resolver ativar a memória afetiva do menino seguindo o código-senha dado pelo fabricante. Ao terminar o processo, ele a chama de mamãe pela primeira vez. Nos dias seguintes David vai aprofundando mais e mais o seu amor pela mãe.
Certo dia, Mônica recebe a noticia de que seu filho Martin é curado da grave doença. Ele volta pra casa e nota que tem um irmão-robô e passa a infernizá-lo. As coisas pioram quando David quase mata Martin acidentalmente.
Henry pressiona sua mulher a devolvê-lo ao fabricante. Ela reluta, pois sabe que isso seria o fim de David.
No caminho da Cybertronics, Mônica para o carro e lhe dá uma chance de sobreviver abandonando-o na floresta. Ele suplica aos prantos para que a mãe não o deixe. Muito abalada, passa algumas instruções, um pouco de dinheiro e vai embora.
Agora David está sozinho. Ele percebe a triste realidade dos robôs rejeitados e abandonados pelos humanos. Vivem como zumbis à caça peças de reposição para garantir a sobrevivência.
David lembrou-se da história de Pinóquio, contada pela sua mãe. Nessa história, a Fada Azul tinha transformado o boneco em gente. Conclui que só obteria o amor de sua mãe caso se tornasse uma pessoa de verdade.
Nesse ambiente deprimente David conhece Joe, o gigolô mecânico procurado pela policia. Juntos passam por várias aventuras. Nessa busca frenética pela Fada Azul, chegam ao professor Hobby. Decepcionado com o encontro, se joga ao mar. Lá no fundo, vê de relance a Fada Azul.
David perde o amigo Joe e, sozinho, percorre as ruas submersas de Manhattan; depara-se com a Fada Azul, que na verdade era uma estátua do parque temático de Pinóquio.
David faz vários apelos à fada. Com o veículo preso, o tempo vai passando, mas ele não desiste. Assim se passam dois mil anos e a terra está numa nova Era do Gelo; os humanos já se extinguiram.
De repente surgem robôs superavançados e encontram a nave e David já congelado. Eles o reanimam e lêem sua memória e descobrem sua triste história.
Usando essas informações, recriam a casa onde o menino morou. Querem que David seja feliz. Reconstituem sua mãe a partir de amostras do DNA do cabelo dela. Os dois passam o dia se divertindo. Fazem festinha de aniversário e ele faz o café preferido da mãe.
David recebe o carinho, o amor e palavras carinhosas da mãe. Foi o dia mais feliz de sua vida. Ao findar o dia, Mônica cai em sono profundo, para não mais acordar, porque vidas reconstituídas duram apenas um dia. Suas últimas palavras foram: “–Eu te amo David. Eu te amo. Eu sempre de amei”. Aquele foi o momento eterno pelo qual havia esperado. Assim David realizou o sonho tão esperado e adormece.
“Inteligência Artificial” é uma ficção, mas o sofrimento das crianças abandonadas é uma realidade bem presente. Içami Tiba, em “Quem ama, Educa!” disse que essa “é uma das tendências do mundo moderno que mais prejudicam a sociedade. Pessoas descartam uma as outras. Pais abandonam filhos com facilidade. O que vale é satisfazer o objetivo pessoal. Reina o individualismo”.
As crianças, os idosos e os menos favorecidos são as maiores vitimas do abandono. Seus responsáveis os descartam porque são considerados inúteis.
O que se dirá então dos que ainda nada tem a oferecer como é o caso dos bebês ainda não nascidos que são abortados? Quando saem do ventre materno, seu primeiro lar, geralmente já saem triturados, cortados, envenenados ou retirados inteiros e mortos na mesa de cirurgia. O argumento principal dos que defendem a prática é que o feto não tem status de ser humano, portanto não têm os mesmos direitos e garantias.
Tendo isso em vista, podemos afirmar que Mônica não amaria David mesmo que ele se transformasse em menino de verdade porque o verdadeiro amor existe independente do que o objeto do amor faça ou deixe de fazer. A razão é simples. O que confere pessoalidade seja ao feto, a criança ou a David, é o amor comprometido e fiel dos pais.
É a iniciativa unilateral de amar que garante o desenvolvimento da criança desde a concepção até a sua maturidade plena. Ao se tornar independente, se estabelece uma correspondência ao amor dos pais. É um amor que vai sendo construído passo a passo.
O amor que Deus tem por nós é assim também. Ele nos ama por iniciativa dele, mesmo considerando nossa condição de pecadores e desumanos. Ele se encarnou em forma humana, entrou na História para nos trazer de volta à humanidade e de volta ao lar.
Deus disse por meio do profeta Isaías:"Porventura pode uma mulher esquecer-se tanto de seu filho que cria, que não se compadeça dele, do filho do seu ventre? Mas ainda que esta se esquecesse dele, contudo eu não me esquecerei de ti (Isaías 4915)".