Se ficar, o bicho come. Se permanecer, o bicho não pega

"Ficar" é um termo bem conhecido dos brasileiros. Houve até o dia que ficou conhecido como o Dia do Fico (09/01/1822). Tudo começou quando a família real retornou a Portugal, deixando D. Pedro como o príncipe regente do Brasil. Tempos depois, D. Pedro recebeu ordens para voltar à Europa. Apoiado pelo povo, resolveu ficar no país, contrariando seu pai.
Ele disse: "Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, diga ao povo que fico". Nesse mesmo ano (07/07/1822), D. Pedro declara a Independência do Brasil, sendo coroado imperador e também nomeado Perpétuo Protetor do Brasil.

Com a morte de D. João VI (1826), D. Pedro quis assumir a coroa portuguesa. Mas essa atitude contrariava a Constituição brasileira. Então, vai a Portugal e abdica ao trono em favor da filha Maria da Glória. De volta ao Brasil, teve de lidar com várias revoltas populares e o pior, a falta de apoio de seus ministros. Essa crise só termina com a abdicação ao trono brasileiro em favor de seu filho, Pedro II. Assim, melancolicamente, D. Pedro se retira de vez à sua terra natal para retomar o trono.

A vida amorosa do imperador foi tão confusa quanto a pública. Ele teve ao todo 18 filhos. Casou-se duas vezes e teve várias amantes (a marquesa de Santos, a francesa Noémi Thierry, a Maria Benedita Bonfim, a uruguaia María del Carmen García, a francesa Clémence Saisset e a monja portuguesa Ana Augusta).

Assim, D. Pedro frustrou a todos. Criaram-se falsas expectativas em torno dele. Os sonhos se transformaram em pesadelos. O “Fico” virou sinônimo de partir, ir embora, não permanecer. Declarava amores pelo Brasil, mas estava de olho em Portugal. Disse que queria o bem da nação, mas, o queria mesmo era o seu próprio bem. Em outras palavras, o príncipe virou um sapo.

Curiosamente, o “Fico” de D. Pedro e o termo “ficar” usado pela moçada, tem uma interessante correlação. Ambas expressam uma relação desprovida de compromisso, de natureza efêmera, superficial, utilitária e impulsiva. Assim, o “Fico” do príncipe ilustra muito bem o significado do atual“ficar”.

“Ficar” é um namoro relâmpago. Diferencia-se de namorar porque o namoro envolve um compromisso, fidelidade e, ao menos teoricamente, tem como característica a durabilidade. O “ficar” acontece por minutos ou horas. De modo que, depois, o(a) moço(a) possa ficar com quem quiser. Não precisa sentir ciúmes se vê-la(o) com outro, nem ligar no dia seguinte.
O ato de “ficar” normalmente envolve beijos mais ou menos ardentes e certas liberdades aceitas por ambos os “ficantes”. Em alguns casos envolvem relações sexuais.

Mas essa condição de “ficante” é estressante e geram frustrações, principalmente entre aqueles que procuram de modo sério o seu “príncipe” ou a sua “princesa”, mas que por algum motivo só encontram sapos. Nesse jogo, geralmente as mulheres são as mais prejudicadas. Muitas delas procuram terapeutas apresentando quadros de depressão, auto-estima a zero e outros sintomas diversos.
Sentem-se rejeitadas pelos homens que amam (ou pensam amar). Na maioria são mulheres bonitas ou, ao menos, elegantes, inteligentes, independentes financeiramente, mas que não conseguem “namorar sério”. Geralmente não estão sozinhas, tem um relacionamento, mas só “ficam”, não têm compromisso. Sendo assim, acabam saindo com vários homens, intercalando encontros “sem compromisso”. E, nesse circulo vicioso acabam cada vez mais distantes de seu objetivo, que é ter um namorado.

Há também o risco de contrair DSTs com o homem que sai com várias mulheres. As mulheres que saem com ele também saem com outros para “esquecer a dor do abandono”. Numa situação dessas, por mais cuidados que se tenha, logo a dor poderá ser de uma DST que ninguém saberá ao certo de onde veio.

Elas “ficam” com determinados homens que adorariam ter como namorados, mas eles não querem compromisso. Alegam que são ciumentos, possessivos ou neuróticos ou qualquer detalhe da personalidade que justifique um “não envolvimento”. Adoram um happy hour com determinadas mulheres, porém, não se comprometem com nada nem ninguém. São livres e soltos, não sentem ciúmes, não sofrem nem fazem sofrer. Não querem ser “príncipes”. Preferem ficar na condição de “sapos”, que é mais conveniente.
"Ficar" ou namorar, na prática, tem características muito semelhantes. São carinhos, beijos, sair para jantar, dançar, cinema, etc. Só que sem telefonemas no dia seguinte, sem flores em ocasiões especiais, nem datas para comemorar a dois.

A essa altura, seria sensato parar e questionar a validade de se investir afetivamente numa relação dessas. Gostaria de dar dicas de como se conduzir nessa complexa e excitante área, que é a vida amorosa, tendo como base a Palavra de Deus. A paixão é muito gratificante, mas há perigos. Pode parecer um pouco estranho, mas os adultos também "ficam" tanto quanto os jovens e, devido a maior vivência, podem levar a práticas mais ousadas. Então nada melhor do que deixar Jesus nos orientar.

Se você tem um objetivo concreto, não alimente ilusões que te farão sofrer ainda mais. É melhor sentir o amargo do remédio que cura do que a dor da desilusão.
Evidentemente ninguém é obrigado a falar em casamento nos primeiros encontros, mas, se a intenção é namorar sério, também não dá para ficar saindo com homens que já insinuam de cara que só querem “ficar”. A proposta só seria aceitável se você compartilha dessa intenção.
Agora, se o seu desejo é ter um namorado, não invista num relacionamento onde o homem propõe, para começar, só sexo e amizade. Isso porque o conceito de “ficar” para o homem difere da mulher. Para o homem “ficar” geralmente tem conotação sexual. Se ele consegue a parte que lhe interessa, dá no pé.

Se você está “ficando” e essa relação não deslanchou em um mês, não se iluda achando que esse relacionamento ainda irá se firmar.
E se está saindo com outros e ainda esperando o seu príncipe se tocar, então o caso está mesmo perdido. Seu príncipe jamais irá respeitá-la por que você própria está se desrespeitando. Portanto, valorize-se e procure outro que já esteja acordado.

Desta forma, não vale a pena perder seu tempo e se desgastar emocionalmente com um pseudo-amor que te desestabilidade e confunde. Pode ser que você esteja perdendo grandes chances de encontrar uma relação estável e equilibrada que, no mínimo, a fará crescer.

Para terminar, vimos que D. Pedro, o príncipe, foi o precursor das “ficadas”. Ele “ficou” com o Brasil, “ficou” com Portugal e “ficou” com muitas mulheres. Como resultado acabou sozinho. Ninguém mais quis ficar com ele. Dizem que a História é a ciência que serve para aprendermos com ela e evitar os mesmos erros cometidos no passado. Então, que todos nós possamos reaprender resgatando o sentido original do “ficar”, ou seja, “permanecer”, que envolve compromisso, lealdade e durabilidade. Se não for assim, caia fora dessa relação.

Jesus disse: “permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, se não permanecer na videira, assim, nem vós o podeis dar, se não permanecerdes em mim (João 15:4)”.
Esse é o principio espiritual. Jesus é a videira, o tronco e as raízes. Nós somos os ramos. Ramos só sobrevivem se estiverem ligados, comprometidos com o tronco. Assim devemos ficar (no sentido de permanecer) com Jesus. Somente assim, nossa vida terá estabilidade e direcionamento, inclusive na vida afetiva.

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