
A legalização do divórcio no Brasil está completando 30 anos em 2007. De 1991 a 2002, o número de divorciados aumentou 55%, enquanto que a porcentagem de casamentos caiu 4%. Nesse período, mais da metade dos separados casaram novamente. Antigamente, a crise do casamento ocorria por volta do sétimo ano. Hoje, no terceiro ano. A nova geração de casais é mais imediatista e não investe à longo prazo. É comum ver casais se divorciando por motivos fúteis. Os de terceira idade, decidem pela separação revendo questões ligadas a traição no passado.
Esse fenômeno já consagrado na sociedade, agora tem invadido também as nossas igrejas.
Quais as principais causas desse aumento de divórcio entre os crentes? O que diz a Bíblia sobre o assunto? Que alternativas podemos propor àqueles, cujos casamentos fracassaram?
Vivemos a era da fluidez das instituições. O casamento era uma instituição considerada sólida. Agora, a tendência é dissolver e assumir novas formas. O sociólogo Z. Bauman observa que “a paternidade, a maternidade, o núcleo familiar está se desintegrando no divórcio”. Há três perigos que tem corroído as bases do casamento.
Em primeiro, a crise dos relacionamentos. Nesse contexto, a fidelidade aos votos matrimoniais fica enfraquecida em vista da multiplicidade de opções de novos relacionamentos ampliada pela urbanização, sociedade de mercado, mídia e a expansão dos meios de comunicação, especialmente a internet.
Em segundo, a secularização do cristianismo. Ela ofusca a visão transcendental do casamento. O declínio da fé cristã no Ocidente tem como a conseqüência a perda do comprometimento em relação à compreensão cristã de santidade e permanência do casamento.
Em terceiro, o individualismo que acirra o egoísmo, reduzindo o casamento à conveniência do momento. Outros fatores como a emancipação financeira da mulher e a facilidade de separação amparada pela lei do divórcio, viabilizam o divórcio.
O livro de Gênesis revela que o casamento é uma instituição divina, não uma invenção humana. A narração da cena do encantamento, a declaração de amor de Adão e a definição da essência do casamento mostram a idéia de Deus ao instituí-lo. Adão entendeu havia entre eles aquela força que une os casais. Havia também a participação divina nessa união. Então, o casamento é consumado porque “o homem deixará pai e mãe; unir-se-á à sua mulher; e serão os dois uma só carne”. Ao se casarem, um relacionamento (pai e filho) é substituído por outro (marido e mulher), sendo este último mais profundo e misterioso. A união é exclusiva (um homem, uma mulher), publicamente reconhecida (deixa os pais), permanente (une-se à sua mulher), e completada pelo ato sexual (uma só carne).
Ao ser questionado pelos fariseus, Jesus reafirma e interpreta o que vimos em Gênesis (Mt 19.3-12). Em primeiro lugar, Jesus endossou a estabilidade do casamento. Ele cita Gn 2.24 e acrescenta dizendo: “já não são dois, porém uma só carne. Portanto o que Deus ajuntou, não o separe o homem”. A visão de Jesus é que o matrimônio é mais que um contrato humano, é um jugo divino.
Em segundo lugar, Jesus declarou que a provisão mosaica do divórcio era uma concessão temporária ao pecado humano. Moisés não “mandou” e nem aprovou o divórcio, como afirmaram os fariseus, mas “permitiu” relutantemente por conta da dureza de seus corações.
Em terceiro lugar, Jesus chamou de adultério o segundo casamento depois do divórcio. Sem dúvida são palavras duras, mas ele expõe com franqueza as conseqüências do pecado.
Por último, Jesus permitiu o divórcio e o segundo casamento sobre a base única das relações sexuais ilícitas (adultério, homossexualidade, bestialidade). Além disso, ele não ensina que a parte inocente deve divorciar-se, uma vez que a infidelidade seja comprovada, ou seja, o divórcio é permissível, mas não obrigatório. Então ele não recomenda ou encoraja a dissolução do matrimônio. Sua ênfase estava na permanência.
Tendo em vista os dias turbulentos que vivemos e sentindo os ventos da permissividade, que respostas a igreja de Cristo dará àqueles que se sentem feridos pelos lares desfeitos? Realmente não há respostas fáceis. Podemos, todavia, apontar quatro caminhos com base naquilo que foi exposto até aqui:
Primeiro, a igreja deve quebrar os tabus evangélicos e ensinar claramente todos os aspectos do casamento e a reconciliação. A reconciliação pelo perdão é o cerne do cristianismo. A vida a dois não deve ser baseada na instabilidade das emoções (amo, não amo), mas procurar descobrir novas facetas que tornam mais agradável a vida e ir de encontro as necessidades mínimas do outro. Isso exige habilidade e esforço.
Segundo, os pretendentes devem receber ajuda adequada na preparação para o casamento. Muitas vezes casais caem na ilusão acreditando que basta ter em comum a fé. Há inúmeros outros fatores que devem ser levados em conta. Relevar os aspectos pessoais a planos secundários pode acarretar um preço muito alto no futuro.
Terceiro, há necessidade de um eficaz trabalho pastoral para os divorciados. Jesus espera que seus discípulos tenham padrões mais elevados que o mundo não-cristão. Entre vós não deve ser assim, disse ele. Portanto, a vocação da igreja não é conformar-se com a tendência popular, mas dar testemunho do propósito de Deus com relação ao casamento. No entanto, a dureza de coração não se restringe ao mundo não-cristão. Assim, torna-se necessário uma flexibilidade tendo em vista a instabilidade humana. A persistente dureza de coração expressa em comportamentos como a violência física, a indiferença às necessidades do parceiro, os maus-tratos, podem vir a inviabilizar o convívio sob o mesmo teto. Devemos procurar estender nossas mãos com profunda compaixão àqueles que fracassaram no casamento, especialmente aos que conscientemente não podemos recomendar a fuga pelo divórcio.
Como conclusão, diremos que os cristãos devem continuar afirmando o seu testemunho com relação aos ensinamentos do seu divino Senhor. Podemos em determinada ocasião, sentir-nos com liberdade para recomendar a legitimidade de uma separação sem divórcio para uma possível reconciliação futura ou, em caso extremo, um divórcio sem segundo casamento, tomando como base I Co 7.11. Mas não temos liberdade de ir além das permissões do nosso Senhor.